Entrevistas de JoaQuim Gouveia

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Nov 13

 

O Futuro preocupa-me e muito!

 

Tem sessenta e cinco anos, nasceu em Setúbal, no bairro de Troino. Aos treze anos abraçou o escutismo católico onde diz ter aprendido os fundamentos da democracia. Esteve muitos anos ligado ao imobiliário e à construção civil, tendo participado na reconstrução de Tróia. Gosta de escrever e a serra da Arrábida fascina-o pelos seus mistérios, tendo já dedicado alguns livros a esta musa. Às vésperas de lançar o seu oitavo livro sobre a missão dos mórmons em Portugal, Rui Canas Gaspar confessa-se preocupado com o futuro do mundo

 

Entrevista de Helena galvão

 

Como foi a sua infância?

Tive uma infância normal, brinquei nas ruas do bairro de Troino, recordo as brincadeiras com os buracos e a água da chuva que servia para flutuar barquinhos, e diverti-me imenso enquanto menino. Aos treze anos ingressei nos escuteiros e senti a vida ficar mais séria, mas fui muito feliz. Fui um dos dirigentes mais novos do Corpo Nacional de Escutas, e aprendi no escutismo os fundamentos da democracia.

 

O primeiro Amor…

Não me lembro muito bem da “mocinha”, mas deveria ter uns treze anos e recordo-a com um perfume muito agressivo. Já adulto, e já casado, ela dirigiu-me a palavra numa loja na baixa de Setúbal e questionou-me se me lembrava dela (risos)

 

E o primeiro emprego…

Foi na sapataria 53 na baixa de Setúbal. Arrumava as caixas de sapatos e levava-os à “amostra”. Um serviço personalizado em casa dos clientes, para que pudessem experimentar. Ao fim de algum tempo, passei a atender na loja, na altura em que surgiram as primeiras sabrinas

 

Como define a sua casa?

A minha casa é o meu cantinho do céu aqui na terra. É o sítio onde eu me sinto bem, é o local onde eu tenho um sofá para me sentar, uma cadeira e uma secretária e um computador para trabalhar. Onde está a minha esposa, o meu neto e com ele faço “batalhas aéreas” com aviões de papel. É o meu cantinho do céu porque até eu casar nunca tive um sofá. Tinha uma cadeira numa casa pequenina em Troino, onde nem sequer havia espaço para o sofá. Dou muito valor ao sofá, não interessando que ele seja de pele, seja do que for, é o meu conforto e bem-estar

 

O que pensa do mundo?

Vejo o mundo de duas formas. Nunca a tecnologia avançou tanto, nunca tivemos bens materiais e conforto. A evolução do mundo é uma coisa espectacular. Por outro lado, nestes últimos anos temos vindo a assistir a um aumento do egoísmo, do materialismo, do “eu” em detrimento do colectivo. Sou um homem que preza muito a solidariedade, a fraternidade, o bem-estar de todos, aquilo que eu quero para mim é aquilo que eu quero para os outros. Nos anos sessenta, por exemplo, havia alguma utopia, mas os jovens faziam algo pelos outros. Hoje as pessoas fazem desde que lhes paguem. O voluntarismo é muito raro. As próprias famílias ressentem-se, não têm filhos porque é uma prisão, as pessoas não fazem nada se não receberem algo em troca. O que vai ser o nosso mundo dentro de meia dúzia de anos? O futuro preocupa-me. Aqueles que hoje estão cheios de “sangue na guelra” dentro de uma dúzia de anos estarão velhos e nem sequer têm filhos a quem recorrer porque foram egoístas

 

Sente-se realizado humana e profissionalmente?

Sou um homem de sorte, feliz, porque brinquei como criança sem dinheiro, porque não havia dinheiro para brinquedos. Como jovem e adulto realizei-me. Profissionalmente, fiz aquilo que sempre gostei de construir. Comecei pelo tal paquete modesto que levava as caixas de sapatos à “amostra” e quando deixei de trabalhar por conta de outrém era director da minha empresa. Ainda continuo a trabalhar na gestão do meu património familiar a par da escrita dos meus livros e liderança do programa de voluntariado mórmon “Irmãos” que ajudam na zona de Setúbal

 

Como se resolve a crise?

A crise resolve-se com o trabalho de todos. E resolver-se-á quando tivermos um governo com pessoas credíveis que façam a gestão do país como se estivessem a gerir a sua própria casa. Que dêem provas de seriedade e que sejam exemplo, pelo exemplo.

Gosto muito da frase “A palavra convence, mas o exemplo arrasta”. Não consigo conceber que um ministro tenha vinte ou trinta carros à disposição e peça aos outros para poupar no combustível. A crise resolve-se quando tivermos pessoas competentes do ponto de vista técnico, mas sobretudo com pessoas humanas que ponham o bem- estar comum à frente do bem-estar individual. Discordo da política do “garrote”, do poupar, poupar. Quando a construção civil avança, também avança a economia

 

Deus criou o Homem, ou foi o Homem quem criou Deus?

Deus criou o homem e a própria ciência mostra-nos a evidência desse facto. Alguns telescópios descobriram planetas onde é suposto haver vida. Para mim Deus criou o Homem, e ponto final

 

Se pudesse voltar atrás o que mudaria na sua vida?

Não mudaria rigorosamente nada. A vida é feita de altos e baixos, de coisas boas e más. As rosas são flores muito bonitas mas se nos descuidarmos ficamos com a mão picada. Num dos meus empregos cheguei a ter um ano de ordenados em atraso. Estou a passar pela crise tal como todos os portugueses. Vivi coisas boas, conheci a paz, defendi-a. Estive na Guiné e livrei-me da malária. Passei por tudo isto mas consegui ultrapassar tudo

 

 

Que faz no presente e que projetos para o futuro?

Tenho como prioridade apoiar os meus filhos, através dos netos. Já estou reformado no papel mas na prática continuo a fazer a gestão do meu património familiar. Enquanto estive no activo, profissionalmente, procurei seguir uma máxima que aprendi nos escuteiros: “Trabalhar, poupar, investir e gastar. Estou também a escrever o oitavo livro, este sobre a história da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, em Portugal. Conta a história de milhares de pessoas que têm desenvolvido a sua fé e têm dado muito de si. É uma homenagem aos missionários mórmons, rapazes e moças que deixam a sua terra, a sua família e as suas namoradas, pagando do seu bolso a sua missão num país estrangeiro. Intitula-se “Movidos pela Fé” e será apresentado ainda antes do Natal.

Enquanto escuteiro católico tinha uma fé infantil, nesta Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias adquiri uma fé adulta, mais vivenciada e identifica-se mais com a minha maneira de ser e de estar.

 

 

CAIXA DE PALAVRAS

 

Um destino

Amazónia

 

Um livro

A Bíblia

 

Uma Música

Mais perto quero estar (Sarah Flower Adams e

João Gomes Da Rocha)

 

Um ídolo

O meu pai

 

Um prato

Carapaus grelhados na brasa

 

Um Conceito

Solidariedade

 

 

publicado por Joaquim Gouveia às 09:39

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