Entrevistas de JoaQuim Gouveia

28
Nov 13

 

“NÃO RECONHEÇO O MEU PAÍS”

 

Miguel Assis é ator do Teatro de Animação de Setúbal e professor na secundária da Amora. Hoje voltaria a escolher a sua profissão mas com um plano “b”, como diz pela instabilidade a que está constantemente sujeito. Diz não reconhecer o mundo nem o país onde vive e tem dificuldade em aceitar que passados, praticament,e 40 anos sobre Abril de 74, o país ainda viva em crise. Acredita em Deus, por conformismo porque é bom pensar que a vida não acaba aqui. Está a preparar a “ÓPera do malandro” para apresentar em Setúbal, com um elenco fabuloso

 

Como foi a sua infância?

Foi feliz. Sou da margem Sul, da zona Amora/Seixal, que tem uma cultura urbana muito própria. Sou da geração em que se podia ir para a rua e para a escola sózinho. Ainda tenho muitos amigos dessa época. Gostei bastante desses tempos

 

O primeiro amor…

Era a Cila, de quem fui padrinho de casamento. Andava com uma camisa com gola de marujo e uma mala de cabedal. Tinha o cabelo da cor do mel. Não me ligava nenhuma. Só a namorei aos 17 anos, mas desde os 10 que gostava dela

 

E o primeiro emprego…

No Teatro de Animação de Setúbal, como estagiário aos 20 anos. Bati à porta do Carlos César. Já passaram 21 anos. Nessa altura ganhava 19 contos e passado um ano já ganhava 150

Como é a sua casa? Como a define?

É pequena para não ter que arrumar muito. É tipo abrigo. Sei que ali estou seguro. É acolhedora e agradável. Está decorada à homem. Para mim casa é para morar e carro é para andar

 

O que pensa do mundo?

É uma coisa que não reconheço, um lugar muito estranho. Também não reconheço o meu país. Nunca pensei que passados estes 40 anos sobre o 25 de Abril, não tenhamos andado nada para a frente. É tudo muito frágil. Andamos todos desesperados. Isto está assustador. As pessoas sentem de novo a necessidade de cantar o “Grândola Vila Morena”

 

Sente-se realizado humana e profissionalmente?

Não. Humanamente falta-me plantar a árvore, ter os filhos e escrever o livro... Profissionalmente gosto do que faço mas nem sempre faço aquilo que gosto. Resta-me a grande alegria de ter os meus pais vivos.

 

Como se resolve a crise?

Acho que com boa vontade e isso até nem falta ao povo. Falta sim aos nossos governantes. Os ricos estão cada vez mais ricos e a classe média está cada vez mais pobre. Penso que isto se resolve com equilíbrio e boa vontade

 

Deus criou o Homem, ou foi o Homem quem criou Deus?

Eu gosto de acreditar que foi Deus que criou o Homem, mas esta crença tem a ver com o meu conformismo. É bom acreditar que isto não acaba aqui e isso reconforta-me

 

Se pudesse voltar atrás o que mudaria na sua vida?

Muita coisa. Tinha escolhido a mesma profissão mas com um plano “b”, porque é uma profissão muito instável. A cultura é sempre vitima de cortes brutais em tempos de crise. Fazem passar a imagem de que a cultura é supérflua e desnecessária. Mas a cultura é a própria história do povo

 

Que faz no presente e que projectos para o futuro?

Dou aulas de teatro na Escola Secundária da Amora e sou ator do TAS. Tenho um projeto para 2014, que é a encenação da “Ópera do Malandro”, do Chico Buarque, para Setúbal, com estreia marcada para 24 de Outubro. Tenho um elenco fabuloso

 

 

CAIXA DAS PALAVRAS

 

Um destino

Brasil

 

Um livro

Amor nos tempos de cólera (Gabriel G. Marquez)

 

Uma música

Valsinha (Chico Buarque)

 

Um ídolo

Salgueiro Maia

 

Um prato

Arroz de marisco

 

Um conceito

Cada dia é um dia

 

 

publicado por Joaquim Gouveia às 05:35

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