Entrevistas de JoaQuim Gouveia

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Mar 15

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“Mudamos o mundo se mudarmos as pequenas coisas!”

Entrevista de Helena Galvão

António Milheiros é director do Jumbo de Setúbal. Nasceu em Évora em 1960 e aos quatro anos veio para Setúbal. Concluiu o MBA em Gestão, foi fuzileiro durante dois anos, o que lhe terá proporcionado, segundo diz, “disciplina e reflexão sobre o que queria para a vida”.

O seu primeiro emprego foi na Setcooper, loja junto à rodoviária, em 1979, e depois de cumprir tropa, assumiu a gerência da loja, com apenas 23 anos. Em 1987 foi convidado para a Coopset, loja da Terroa e em 1992 surge a oportunidade para a gestão de uma área de negócio, mercearia líquida, do Jumbo de Setúbal. Evoluiu gradualmente de responsável de departamento para a direcção das lojas de Alfragide e Amoreiras, em Lisboa.

Em 2010 regressa à loja de Setúbal como gestor, cargo que ocupa até hoje. Regozija-se por fazer parte de uma empresa que valoriza a experiência das pessoas, até porque o grupo francês reconhece a sua capacidade para liderar pessoas. Casado e pai de 3 filhos, tem como hobbie acompanhar os jogos do Vitória Futebol Clube, quando joga em casa. Gosta de ler pelo grande prazer. A leitura transporta-o para a realidade do livro. Lê essencialmente romance histórico e elege Eça de Queiroz, apreciando a forma como o escritor retrata a sociedade portuguesa da época.

 

Como foi a sua infância?

Foi uma infância muito feliz, cresci no bairro do Viso, um bairro estigmatizado na altura mas eu não senti estigma nenhum. Uma infância com muitas brincadeiras e junto de pessoas amigas que me ajudaram a crescer. Tive a felicidade de também lá viver uma fase muito importante da adolescência. Tinha 13 anos quando aconteceu o 25 de abril, e formámos uma associação de moradores. As pessoas contribuíam com quotas, tínhamos dinheiro para gerir as acções que queríamos desenvolver. Fazíamos pinturas, concursos, excursões e proporcionávamos a ida a Lisboa de muitas pessoas do bairro para conhecer os monumentos e o jardim zoológico. Éramos miúdos de 15 e 16 anos com uma preocupação com os outros e de participar naquilo que é a vida comum, valor que hoje se perdeu. O 25 de abril foi gratificante por isso, fez as pessoas pensarem que o bem comum era importante e se todos trabalhassem em comum seria um benefício para todos.

Não há Amor como o primeiro?

Amor melhor que o primeiro é o segundo e melhor que o segundo é o terceiro. Na nossa vida temos vários amores. Seja a nossa mulher, os nossos filhos, a nossa família e até mesmo ao nosso emprego, às pessoas que trabalham connosco. Temos vários amores e todos os amores são bons. Uma vida só com um amor é muito pouco.

O Homem nasceu para trabalhar?

O Homem nasceu para ser feliz, para se realizar e conquistar essa felicidade. O trabalho também faz parte dessa realização. É importante para nos sentirmos realizados, para termos uma acção com outras pessoas, para aprendermos e termos os nossos gostos, as nossas fases más, porque isso é a vida. O trabalho faz parte da nossa vida mas não é a nossa vida, senão os economistas é que mandam no mundo e esse caminho nunca trará grande felicidade.

Minha casa, meu tesouro…

É um refúgio. O papel da família é extremamente importante naquilo que é o nosso equilíbrio emocional. A família deixou de ter o valor que para mim deveria ter, como esse ponto de refúgio, para debatermos e falarmos das coisas abertamente sem qualquer dogma. Tenho 3 filhos e todos têm visão diferente dos problemas que ultrapassamos. Essa diferença é que dá riqueza, o facto de nós dentro de casa termos essa possibilidade de discutirmos as coisas e chegarmos a um consenso mesmo com ideias diferentes. A minha casa é o meu refúgio nesse sentido, porque dá-me esse equilíbrio emocional importante para ultrapassar o dia-a-dia que às vezes é agressivo.

 

O que pensa do Mundo?

Não tenho a visão de que a minha casa é um mundo, a minha casa é mesmo a minha casa. Temos um papel a desempenhar naquilo que é na nossa casa, no nosso emprego, na sociedade em que estamos inseridos e isso vai contribuir para que o mundo seja melhor. Ter uma ideia de que o mundo é tão grande, que eu quero mudar tudo, é impossível. Se mudarmos aquilo que está no nosso dia-a-dia, na maneira como lidamos com as pessoas, como encaramos os problemas, como os ajudamos a resolver, vamos conseguir que o mundo seja melhor. A minha visão é de que mudamos o mundo se mudarmos as pequenas coisas do dia-a-dia para que ele seja melhor.

Mais vale tarde do que nunca?

Nunca é tarde para fazermos as coisas melhor. O meu lema é que amanhã vou tentar fazer melhor daquilo que eu fiz hoje. Quando entro numa loja para motivar as minhas equipas e motivar-me a mim próprio penso que daqui a um ano as coisas têm que estar melhor do que estão hoje. Tenho a noção de que fazer melhor todos os dias, daqui a um ano as coisas serão diferentes. A leitura que faço, passado um ano, é de que consegui melhorar e o que não consegui, é para o próximo ano que eu tenho que conseguir. Esta autocrítica que temos que ter para connosco próprios, permite dizer que nunca é tarde para conseguirmos fazer melhor.

… e ao 7º dia Deus descansou…

Sou católico e penso que Deus está sempre presente e nunca está a descansar com o povo que somos. Independentemente de sermos cristãos, muçulmanos ou de outra religião, se tivermos essa consciência, esse valor espiritual de que estamos neste mundo para tentarmos fazer as coisas melhor, estamos a concretizar aquilo que é a criação de Deus. Na minha perspectiva há muitas pessoas que consideram-se (católicas), mas têm muita dificuldade em praticar aquilo que são. Os preceitos cristãos sem os dogmas da igreja a mim não me dizem nada, como ter que ir à missa todas as semanas. Vou quando me apetece. Os meus filhos são baptizados, sou casado por igreja mas se decidisse que não me queria casar por igreja, o casamento tinha o mesmo valor. Não são os dogmas que têm que mandar mas a nossa vontade.

Pelo sonho é que vamos?

O sonho permite-nos pensar que as coisas podem melhorar. Sonhar é nesse sentido. Temos que ser rigorosos e disciplinados naquilo que queremos concretizar. O sonho é o que comanda a vida, como diz o poeta mas o sonho é que nos dá o objetivo que queremos alcançar. O meu sonho é ter 90 anos e sentir-me feliz ao pé da minha mulher. Se não fizer todos os dias para que isso aconteça, isso não irá acontecer. O facto de nós termos sonhos é importante. Temos é que focalizarmos na concretização desse sonho. Se tivermos um sonho que aponta num sentido e fizermos coisas completamente diferentes, não vamos concretizá-lo. Aquilo que nós queremos da nossa vida e aquilo que fazemos no dia-a-dia, se tivermos essa coerência é mais fácil concretizar os nossos sonhos. A dificuldade das pessoas é que têm um sonho mas não querem dar os passos para concretizá-lo.

Que lhe pede o seu coração?

Quando estamos a falar do coração estamos a falar de emoções e são muito importantes na nossa vida. Hoje analisamos tudo ao pormenor, os rácios, como fazemos as coisas, qual é o impacte que tem, ou seja, numericamente conseguimos medir quase tudo, menos as nossas emoções. Costumam perguntar-me como é que consigo ser do Vitória de Setúbal. Para mim é extremamente importante ser de um clube da minha cidade, ir ao estádio e ter aquela vivência com os meus amigos, porque isso é emoção e essa emoção não conseguimos definir. Se eu tiver que enumerar racionalmente ou numericamente as razões porque sou do Vitória de Setúbal, não consigo dizer. Nem haverá razões para ser, porque não é uma equipa campeã, é uma equipa que dá mais derrotas do que vitórias, mas o facto de ter esta ligação emocional para mim, como tenho considerado Setúbal e com aquilo que é a importância do meu contributo para a cidade, é algo que não consigo definir, mas para mim é extremamente importante. Mesmo quando estive fora da cidade de Setúbal a trabalhar, nunca deixei de acompanhar a cidade e a loja de Setúbal como se fosse a minha loja e o que estava no meu horizonte quase diário para resolver.

 

O SENTIDO DAS PALAVRAS

 

Que diria a Jesus Cristo se o encontrasse?

Perante Jesus Cristo não diria nada, teria muito para ouvir. Acredito em Jesus Cristo, existiu mesmo e historicamente está provado. A mensagem que nos deixou foi muito forte e perdura até aos dias de hoje. Ouviria o que Jesus teria para dizer, não lhe diria nada porque tenho muito a aprender com Ele, nem lhe pediria nada. Nós é que temos que construir aquilo que queremos. Acredito muito naquilo que é a minha vontade. O facto de ser cristão e de saber que Jesus existe para mim é importante e determinante para conseguir isso. Todos temos dias mais difíceis e dias mais fáceis e nos dias difíceis é importante termos alguém que nos dê esse conforto. A religião é quase que o “cimento” para consolidar as nossas vontades e os nossos desejos.

Conhece Auschwitz?

Ainda não visitei mas ainda vou visitar. Foi um marco, pela negativa, daquilo que a humanidade fez durante um período longo demais, porque morreram lá milhões de pessoas. É importante que hoje Auschwitz apareça como algo que não se pode repetir. A propósito do 70º aniversário do seu encerramento, alunos alemães foram visitar Auschwitz e um miúdo de cerca de 17/18 anos disse que na escola ensinam-lhes que Auschwitz é algo com o qual temos que aprender para que não se volte a repetir. É uma lição para a humanidade mas para hoje ainda e não só para há 70 anos atrás. Os alemães representam um povo que não tapa o que foi mau para a história da Alemanha e ainda bem que não passam um pincel por cima.

Um Ídolo

A ideia de ídolo é a de que alguém foi perfeito e eu não acredito que existam pessoas perfeitas. Referências tenho muitas, são pessoas do meu dia -a- dia com quem fui aprendendo.  O meu pai foi uma referência para mim na sua postura perante a vida. Profissionalmente, José Alves um antigo chefe, pela forma como transmitiu como as equipas têm que ser tratadas e pela motivação indispensável para que as coisas aconteçam. Os meus filhos são uma referência para mim por aquilo que me ensinam das novas tecnologias, mas também pela forma como vêem a vida e manifestam a preocupação de não sendo perfeitos, quererem fazer o melhor todos os dias.

Três objectos indispensáveis

Só o telemóvel.

A chave do Euromilhões

Nunca joguei.  Penso que o jogo do Euromilhões não faz parte daquilo que me emociona ou me dá prazer. O jogo que jogamos todos os dias, o do trabalho e da família é o jogo que eu gosto de jogar e que gosto de ganhar.

 

publicado por Joaquim Gouveia às 20:18

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