Entrevistas de JoaQuim Gouveia

10
Set 14

 

Com o apoio HOTEL DO SADO

 

“SOU PASTOR DOS PROBLEMAS DOS OUTROS”

 

O Dr. Manuel Guerra Henriques é um advogado setubalense, homem do fado de Coimbra, fã incondicional de José Afonso. Nasceu para os lados de Figueira de Castelo Rodrigo, apascentou  e tratou de ovelhas durante a sua infância. Conheceu a partilha dos sentimentos ainda com tenra idade e experimentou como primeiro emprego contabilidade industrial que lhe deu, confessa, uma enorme ginástica mental. Acredita que é preciso dar alento aos outros e tem a sua secretária cheia de casos penosos de clientes com a vida em palpos-de- aranha devido a uma crise que tarda em ser resolvida. No seu entender o Homem criou Deus e, a partir daí,  jamais dele se dissociou porque necessita explicar a sua própria essência. Canta fado de Coimbra e os cantautores nacionais. Quando puder revisita Viena.

 

Como foi a sua infância?

A minha infância foi a guardar ovelhas em Mata de Lobos, no concelho de Figueira de Castelo Rodrigo. Talvez isso tenha a ver com o meu gosto pelo “rebanho”. Gosto muito de andar misturado com as pessoas. Detesto a solidão. Fiz a escola nessa aldeia, onde entrei tardiamente porque no dia da minha chamada o responsável disse-nos que os meninos cujo nome se iniciava  por “M” e seguintes apenas teriam aulas no ano seguinte, porque a escola tinha esgotado a lotação. Saí com a sacola que a minha mãe me tinha feito, chorei e fui ter com os meus pais ao campo onde trabalhavam. Passei o ano a guardar e a tratar das ovelhas e a lavrar a terra. Tudo isto com apenas 8 anos. Apesar de tudo recuperei os estudos, tirei o meu curso e licenciei-me em direito.

 

O primeiro amor...

Foi com 10 anos, uma paixão forte que quase me obrigou a desejar que o meu pai morresse para ficar nivelado com a rapariga cujo pai tinha falecido nesse ano. Fiquei sempre com essa imagem de partilha de sentimentos que nunca se quebrou.

 

O primeiro emprego...

Numa empresa de produção agrícola de primores. Fazia contabilidade industrial. Ganhava quatro contos e meio por mês. Foi um emprego estimulante que me deu uma grande ginástica intelectual.

 

Como é a sua casa? Como a define?

É um lugar de eleição, do prazer, do bem-estar, do privado sobre o público. Um espaço familiar  e onde também recebo os amigos.

 

O que pensa do mundo?

O mundo está perigoso mas, ao mesmo tempo, está mais atual e perto de cada um de nós. Temos o privilégio de, quase em direto, assistir a tudo em toda a parte. Talvez um dia o mundo dê oportunidade à fase cíclica dos valores e à tranquilidade e reflexão.

 

Sente-se realizado humana e profissionalmente?

Sim, muito. Profissionalmente, porque ao escolher a minha profissão me permitiu realizar uma das componentes da minha personalidade que é ser um gregário e gostar de encontrar pessoas e realizar a própria solidariedade sem a qual não me conseguiria rever. Como ser humano, tenho uma família, amigos e valores que cultivo todos os dias e que são culturais, ideológicos, solidários e ainda a possibilidade de cantar, que é uma coisa extraordinária e que me dá um enorme prazer. Aqui, uma vez mais, poderia utilizar o termo “rebanho”.

 

 

 

Como se resolve a crise?

Pelo menos,  mantendo a esperança  de que é possível resolvê-la, incentivando isso mesmo no nosso circuito. Tenho em cima da minha secretária muitos casos de desespero a que tento dar um alento para tornar as coisas menos penosas. Os egoísmos dominantes, do capitalismo e da finança,  lançam bastantes dificuldades para perspetivar uma saída a curto prazo. Temos que dar tempo e acreditar nas organizações.

 

Deus criou o homem, ou foi o homem que criou Deus?

Acho que foi o Homem, quem criou Deus, mas depois de o ter criado tem que o cultivar e não pode ignorá-lo sob pena de não resolver a sua própria essência.

 

Se pudesse voltar atrás o que mudaria na sua vida?

Não mudaria nada. Não temos capacidade para mandar ou pré-escolher tudo. Temos que estar disponíveis para o que a vida nos dá a cada momento.

 

O que faz no presente e que projetos tem para o futuro?

Sou advogado, pastor dos problemas dos outros e, paralelamente, sou cantor do Fado de Coimbra e de vários cantautores nacionais. Enquanto tiver voz e saúde hei-de continuar a cantar. Espero, dentro de meia dúzia de anos, reformar-me da advocacia.

 

CAIXA DAS PALAVRAS

 

Um destino

Viena

 

Livro

D. Quixote (Cervantes)

 

Uma música

Coro da primavera (José Afonso)

 

Um ídolo

Amo muito o José Afonso

 

Um prato

Bacalhau à Lagareiro

 

Um conceito

Adota para os outros a norma que gostarias de ter para ti

 

publicado por Joaquim Gouveia às 10:33

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