Entrevistas de JoaQuim Gouveia

08
Set 14

 

“SE DEUS EXISTISSE TERÍAMOS CONTAS A AJUSTAR”

 

João Manuel Faleiro Paixão é um poeta popular setubalense. Nasceu no bairro de Tróino e cedo teve que se dedicar ao mundo do trabalho para ajudar a família. Foi Boletineiro nos Correios. A sua casa é uma fortaleza que divide com a mulher da sua vida. Tem uma opinião pessimista do mundo que diz ter a riqueza muito mal dividida. Está reformado aos 58 anos apesar de se sentir apto para o trabalho mas a dissolução da empresa onde trabalhava não lhe deixou outra hipótese. Não acredita em Deus com quem teria contas a ajustar se fosse possível. Se pudesse voltar atrás teria valorizado mais os seus afetos. Faz versos e colabora com os grupos da música tradicional setubalense.

 

 

Como foi a sua infância?

Foi no bairro de Tróino, o meu país. Nasci no tempo das dificuldades mas havia peixe que era dividido e era o “pão” de toda a gente. Brinquei muito com muitos amigos. Fiz a escola primária na Fonte Nova. Fui um bom aluno. Mais tarde tive que abandonar os estudos para ir trabalhar e ajudar a família.

 

O primeiro amor...

Acho que foi a minha mulher. O resto foram apenas paixões tipo “flops”…

 

O primeiro emprego...

Nos correios a entregar telegramas. Era o chamado Boletineiro. Tive que comprar uma bicicleta com os meus primeiros três ordenados. Ganhava 600 escudos por mês.

 

Como é a sua casa? Como a define?

A minha fortaleza, o lugar onde me sinto bem. Está organizada como eu e a minha mulher a idealizámos. Tenho uma casita na beira-baixa, no Gaviãozinho, que estamos a recuperar. Essa será o nosso refúgio.

 

O que pensa do mundo?  

Sou muito pessimista em relação a este mundo e às pessoas que o fazem. O mundo está muito mal dividido em termos de riqueza. Morrem milhares de pessoas à fome enquanto se investe dinheiro em armas, por exemplo. Não há justiça nem paz.

 

Sente-se realizado humana e profissionalmente?

Humanamente acho que sim. Pena que este mundo não me diga nada porque poderia sentir-me, ainda, muito melhor. Profissionalmente abandonei a carreira cedo pela dissolução da fábrica onde trabalhava. Estou reformado apenas com 58 anos. No fundo ainda me sinto apto para trabalhar. Fui sempre um bom profissional.

 

 

Como se resolve a crise?

Quando a riqueza está nas mãos de 10 por cento da população, quando a banca e a bolsa não são taxados e os impostos continuarem a cair sobre quem trabalha é difícil resolver a crise.

 

Deus criou o homem, ou foi o homem que criou Deus?

Foi o Homem que teve necessidade de arranjar alguém que arcasse com os seus próprios fracassos, uma desculpa para o que está mal feito. Deus, para mim, não existe. Se existisse teria muitas contas a ajustar com Ele.

 

Se pudesse voltar atrás o que mudaria na sua vida?

Teria valorizado mais os meus afetos.

 

O que faz no presente e que projetos tem para o futuro?

Estou reformado. Faço os meus versos, colaboro com grupos de música popular setubalense e no programa “Arestas de Vento”. No futuro pretendo continuar a dar de mim aos outros e à minha cidade.

 

CAIXA DAS PALAVRAS

 

Um destino

Gaviãozinho

 

Livro

Ensaio sobre a cegueira (José Saramago)

 

Uma música

Mercado do Livramento (João Paixão/Manuel Saraiva)

 

Um ídolo

O meu pai

 

Um prato

Posta à mirandesa

 

Um conceito

Acreditar na utopia

 

publicado por Joaquim Gouveia às 11:02

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