Entrevistas de JoaQuim Gouveia

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Out 14

 

“O MUNDO É UMA OBRA PRIMA DA NATUREZA”

 

O Dr. Mário Nery é um homem muito conhecido no meio palmelense pela sua conduta associativista e participativa no meio social da vila. Nasceu em Setúbal, no antigo hospital da Misericórdia, cresceu e brincou nas ruas que dão acesso ao castelo e conheceu um amor inocente na viragem dos 7 para os 8 anos. Aos 13 começou a trabalhar na antiga Socel, como paquete mas a tropa sugeriu-lhe novos desafios. Tem do mundo a ideia de que é uma obra prima da natureza e sobre Deus, tem dúvidas sobre a manutenção do mistério ou se é preferível cessá-lo em definitivo. Para si a resolução de qualquer tipo de crise constitui uma verdadeira utopia regenerativa. Não mudaria nada na sua vida porque sabe que as circunstãncias também a moldam. Gosta de ervilhas com ovos e a justiça é um conceito pelo qual nutre o maior respeito.

 

 

Como foi a sua infância?

Nasci em Setúbal, no Hospital do Espírito Santo, vulgo da Misericórdia. Nos primeiros tempos de vida, o amor dos meus pais e os cuidados que me dispensaram compensaram de sobremaneira as enormes dificuldades financeiras porque passaram. A minha mãe operária conserveira e o meu pai empregado na Lota de Setúbal, mostraram-me desde sempre a dignidade na pobreza em conciliação permanente com o privilégio de andar calçado porque o Sindicato da Indústria Conserveira, me dava sapatos e me facultava livros para alinhavar as primeiras letras. A minha infância vivida entre o “Vise”, a Palhavã e o Castelo de São Filipe, com permanentes descidas à cidade, foi intensa, plena de aventuras e cheia de vida.

 

E o primeiro amor…

Hoje uma imagem sem rosto, lembro a Nazaré. Teria os meus 7 ou 8 anos. Era minha vizinha num  páteo da Rua do Castelo, rodeado de meia dúzia de casas iluminadas a petróleo. Brincávamos muito, partilhando inocências. Penso que seria a mais bonita do meu imaginário da altura

 

E o primeiro emprego...

Com 13 anos, quase 14. 1º dia na Socel – Sociedade Industrial de Celuloses, hoje Portucel. De calções às 8 da manhã, em frente à “Luísa Todi” levado pela minha mãe à carrinha conduzida pelo Domingos Luzio, tendo como anfitriões no “pão de forma” o Domingos Ribeiro e o José Carlos da Malha Ferreira. Aguardavam-me três meses da função de paquete, sucedendo-se cerca de 7 anos na secção de pessoal e depois a contabilidade. A tropa mudou o rumo profissional e social da minha vida, sugerindo novos desafios que haveriam de perdurar para sempre.

 

Como é a sua casa? Como a define?

Trata-se do sítio onde, preferencialmente no meu escritório,  sonho acordado, acelero e sou travado por conselhos prudentes, compartilho a mesa com as pessoas que amo e onde a contragosto sou obrigado a gastar algum tempo de vida a dormir. Não propriamente o corpo da casa, mas especialmente a sua alma, sugere-me todos os dias ao sair de casa  uma vontade indómita de voltar, ao porto seguro que sempre a mesma representa.

 

O que pensa do mundo?

Obra prima da natureza. Aqui e acolá mal e bem frequentado. O mal e o bem, a ganância e a generosidade, a mentira e a verdade, a injustiça e a justiça, a desigualdade e a igualdade, constituem entre outras circunstancias da vida, um desafio permanente à regeneração humana e à procura de uma oportunidade que permita a germinação da felicidade. 

 

Sente-se realizado humana e profissionalmente?

Estou longe de qualquer tipo de realização humana, quer como pessoa, académica ou profissional.

Apoiado na essência da inspiração rotária faço do meu dia a dia um desafio permanente  à procura de oportunidades para exercer o primado da justiça, do amor, da fraternidade e da competência. Nem sempre sou abençoado com o privilégio de ter sucesso, mas não desisto.

 

 

 

Como se resolve a crise?

Que crise, digo eu. Seja qual for o contexto em que se insira a palavra crise, a minha resposta é: não sei! Todavia estou convicto, sem qualquer tipo de certeza que, atentos ao conhecimento de hoje, a resolução de qualquer tipo de crise constitui uma verdadeira utopia regenerativa que alimentará, inexoravelmente, a vontade de descobertas da humanidade de forma permanente e progressiva.

 

Deus criou o Homem, ou foi o Homem quem criou Deus?

Reza a ciência que a origem do mundo, se deve ao Big Bang, de sons e silencios onde quimicamente a explosão de átomos e moléculas haveriam de formar o que conhecemos como mundo. Porém continua, designadamente no CERN na Suiça, a pesquisa permanente e activa do mistério da vida. Tenho dúvidas, se para a felicidade do homem, será melhor a manutenção do mistério ou a sua cessação. Quanto a Deus ter criado o homem e a natureza, reverencio-me por respeito a um domínio onde não sei penetrar.

 

Se pudesse voltar atrás o que mudaria na sua vida?

Partilho da ideia de que uma coisa é prever outra coisa é saber. Saber o futuro seria acabar com uma boa parte do encanto da vida, seria cercear o desafio da esperança no devir. Se pudesse voltar a trás, óbviamente que algumas coisas não essenciais mudaria na minha vida. Estruturalmente não mudaria nada. E depois há as circunstâncias… que nos direccionam para o que queremos e por vezes para o que não queremos…

 

Que faz no presente e que projectos para o futuro?

Director de empresa e consultor jurídico. Continuar a trabalhar até que o corpo e a alma mo permitam. Ver a minha neta crescer.

 

CAIXA DAS PALAVRAS

 

Um destino

Praia dos Carneiros (Recife – Brasil)

 

Um livro

Mal-entendidos (Nuno Lobo Antunes)

 

Uma música

Grácias à la vida (Violetta Parra)

 

Um ídolo

São tantos que os consagro ao esplendor da vida

 

Um prato

Ervilhas com ovos

 

Um conceito

Justiça. Dar a cada um o que merece e lhe pertence

 

 

 

publicado por Joaquim Gouveia às 09:39

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