Entrevistas de JoaQuim Gouveia

19
Nov 13

 

“ESTOU COM MUITO MEDO DO FUTURO”

 

Carlos Lopes é locutor radiofónico na Rádio Sim. Subiu a corda a pulso mas sente-se feliz com a sua atual situação profissional. Teve uma infância pobre e começou a trabalhar muito cedo, como marceneiro, para ajudar a família. Pensa que o mundo está de pernas para o ar e que os valores se estão a perder. Não se sente um homem realizado porque acredita que a vida é uma busca pela perfeição. Critica o esbanjamento de dinheiro neste país e acusa os políticos de má gerência. Gosta de ler José Saramago

 

Como foi a sua infância?

Foi gira. Nasci em Setúbal. Era um menino pobre do bairro Santos Nicolau que andava atrás de uma bola e a conviver com os meninos mais abastados. Na escola acho que fui bom aluno. O meu professor era o senhor Bexiga, de quem tenho boas recordações, principalmente da régua que ele tinha

 

O primeiro amor…

Tinha 16 anos. Era uma miuda muito gira de olhos verdes de nome Florbela, aliás era uma bela flor. Nunca mais a vi

 

E o primeiro emprego…

Com 14 anos era preciso ajudar a família. Fui marceneiro na carpintaria do senhor Manuel, que quando abriu a loja de móveis me promoveu a gerente da mesma

Como é a sua casa? Como a define?

Já é pequena para as necessidades porque tenho três filhos (dois rapazes e uma menina). Estou a precisar de mais uma divisão. De resto é o meu refugio onde gosto de estar sozinho

 

O que pensa do mundo?

Acho que está de pernas para o ar. Estão-se a perder os valores, estão-se a extremar ódios e a cultivar o fundamentalismo. Estou com muito medo do futuro

 

Sente-se realizado humana e profissionalmente?

Profissionalmente ainda não. Nunca devemos estar satisfeitos com aquilo que somos. A vida deve ser uma busca pela perfeição e nesse sentido sinto-me ainda insatisfeito.                 Quero cada vez mais. Pessoalmente não me posso queixar no geral

 

Como se resolve a crise?

A crise não se resolve, evita-se. Não se deveriam ter esbanjado os rios de dinheiro que entraram neste país. A culpa é da má gestão dos nossos políticos. Estamos a sofrer as consequências

 

Deus criou o Homem, ou foi o Homem quem criou Deus?

Acho que existe uma força sobrenatural que comanda tudo isto. Não sei se essa força é o Deus, de que falam. Mas acredito que sim

 

Se pudesse voltar atrás o que mudaria na sua vida?

Mudava muita coisa que fiz inconscientemente e das quais me arrependo. Sou virgem de signo, logo, um perfecionista. Se não fossem alguns erros a minha vida poderia ter sido muito melhor

 

Que faz no presente e que projectos para o futuro?

Sou locutor na “Rádio Sim”, do grupo Renascença. Faço o programa da tarde “À tarde é que é”, que me dá um enorme prazer pelo contacto direto com os ouvintes e tenho outro programa que é a “Casa de Fado” onde tenho o grato prazer de contatar as grandes figuras do fado de Lisboa

 

 

CAIXA DAS PALAVRAS

 

Um destino

Tibete

 

Um livro

Gosto de ler José Saramago

 

Uma música

Pink Floyd

 

Um ídolo

Ainda ando à procura

 

Um prato

Salmonete grelhado

 

Um conceito

Ética

 

 

 

 

publicado por Joaquim Gouveia às 11:05

18
Nov 13

 

“TRILHEI O CAMINHO QUE ESCOLHI”

 

António da Luz Cabrita é um escritor com 5 livros publicados. É também judoca e dá aulas nos Bombeiros de palmela. É alentejano de S. Domingos da Serra e vive atualmente no campo por opção própria. Confessa-se ateu e admite que tem inveja dos que têm crença. Acha que o mundo está mais egoísta e menos solidário. Acredita que construíu uma boa familia e sente-se humanamente realizado. Projeta continuar a viver bem consigo próprio

 

Como foi a sua infância?

Foi feliz embora com algumas privações. Nasci no Alentejo, em S. Domingos da Serra, uma aldeia no campo mas com muitas tradições e espiríto de entreajuda. O meu pai, na altura era quem fazia os meus brinquedos. Depois, já com 5 anos, fomos morar para o Montijo, onde frequentei a Escola Primária nº 6

 

O primeiro amor…

Aos 18 anos, com uma rapariga do Montijo, com quem estudava na escola secundária. Foi um namoro que não durou muito tempo. Mas foi uma paixão muito bonita

 

E o primeiro emprego…

Tinha 11 anos. Fui trabalhar nas férias para uma fábrica de cortiça. Penso que ganhava 500 escudos (dois euros e meio), por semana

Como é a sua casa? Como a define?

É onde gosto de viver e estar e onde me sinto bem. É uma casa que fica no campo, na Lagoínha. Temos alguns animais como galinhas, um porco da Índia e um Ouriço vadio. Tem ainda uma pequena horta de cultivo que me traz tranquilidade e relax

 

O que pensa do mundo?

Está cada vez mais egoista, menos solidário, e mais materialista. No entanto acho que ainda há quem resista e seja solidário marcando a diferença. Honra lhes seja feita

 

Sente-se realizado humana e profissionalmente?

Humanamente estou realizado. Trilhei o caminho que escolhi. Dimensiono os meus sonhos à medida da minha realidade.Construi uma boa familia, moro num sítio privilegiado e tenho bons amigos

 

Como se resolve a crise?

Toda esta crise é fabricada, não acontece por acaso. Esta é mais uma para estripar direitos e regalias consquistadas.Os nossos políticos são criados em viveiros sem experiencia da vida real. Todas as crises têm solução, temos é que encontrá-la.

 

Deus criou o Homem, ou foi o Homem quem criou Deus?

Sou ateu mas respeito todas as crenças e ás vezes até as invejo. O Homem é fruto da evolução natural. Se quiserem chamar Deus a essa evolução...o Homem foi um ramo derivado dos macacos que deu certo

 

Se pudesse voltar atrás o que mudaria na sua vida?

Sou humano, cometo erros. Depois de cometê-los seria fácil corrigi-los, mas muitos já não têm solução. Os erros fazem parte da evolução da vida. Temos que aprender com eles

 

Que faz no presente e que projectos para o futuro?

Estou desempregado. Quero continuar a viver bem comigo próprio. Tenho 5 livros publicados, dou aulas de judo nos Bombeiros de Palmela e cultivo a minha horta

 

CAIXA DAS PALAVRAS

 

Um destino

Islândia

 

Um livro

O velho e o mar (Hemingway)

 

Uma música

Vejam bem (José Afonso)

 

Um ídolo

O meu pai

 

Um prato

Cozido à Portuguesa

 

Um conceito

Respeita para seres respeitado

publicado por Joaquim Gouveia às 08:03

16
Nov 13

 

“Perdeu-se o espírito de entreajuda”


Discjokey há vinte anos em Setúbal, nasceu na capital do Sado há 35 anos e foi criado no bairro do Viso. De origens humildes e muito bem disposto com a vida, viu no seu avô paterno o seu herói que lhe deu a mão quando mais precisou.

Considera que a ganância pelo poder adoece o mundo e que as pessoas estão mais egoístas. A comemorar vinte anos de carreira, prepara-se para apresentar o “filme” da sua vida: “20 anos, 20 momentos”

 

Como foi a sua infância?

A minha infância foi passada em duas zonas da cidade de Setúbal. Fui criado no bairro do Viso, mas os grandes momentos da minha infância foram passados no bairro Santos Nicolau, onde residia a família da minha mãe. Foi aí que eu conheci os meus primeiros amigos, onde tive as minhas primeiras brincadeiras, onde saltei um muro pela primeira vez e fui muito feliz

 

O primeiro Amor…

Foi uma colega de escola, frequentava o ciclo, tinha cerca de onze ou doze anos, era uma menina filha de um casal amigo dos meus pais.

 

E o primeiro emprego…

Tinha dezasseis anos, fui convidado por um amigo para fazer um trabalho de discjokey num bar em Tróia, precisamente na fase crítica da Torralta. Foi um trabalho de cerca de seis meses

 

Como define a sua casa?

Não é a casa dos meus sonhos mas é a minha casa. Era a casa da minha avó e vivo lá há 35 anos. E como prova de amor a essa casa, ainda hoje moro lá com a minha mulher e o meu filho. É onde me sinto bem, onde eu tenho o meu mundo, onde estão as boas e as más recordações. Já lá perdi duas pessoas muito queridas da minha vida

 

O que pensa do mundo?

Vejo o mundo doente como não o via há trinta anos atrás. Os grandes governantes deste mundo põem-no doente. No século XX, existiram grandes ditadores, senhores muito bons e senhores muito maus. Este mundo nunca esteve de boa saúde, esteve sempre com alguma doença. Teve a primeira Grande Guerra, a segunda e a terceira penso que a vivemos desde que a segunda acabou. As pessoas que o governam mantêm o mundo doente, mas penso que entre eles existe meia dúzia de cabeças que seriam capazes de levar o mundo a bom porto. No entanto, a ganância pelo poder faz com que os bons não o transportem para um mundo melhor. Sinto que há cura porque há já pessoas que olham o mundo de maneira diferente

 

Sente-se realizado humana e profissionalmente?

Não me sinto ainda realizado profissionalmente. Com trinta e cindo anos, vinte de carreira como discjokey, falta-me realizar ainda muitas coisas. A minha profissão é de horizontes abertos, estou sempre a aprender, nunca me considerei dono e senhor da razão, nem sou o senhor que sabe tudo e mais alguma coisa. Os que começam agora a sua carreira como disckjokey tomam-me como uma referência. Mas sou capaz de aceitar as mais diferentes críticas, das mais variadas idades. Ainda tenho muito a aprender.Ao nível pessoal, gostava de ser pai outra vez, mas de uma menina

 

Como se resolve a crise?

Se deixarmos de dizer a palavra crise, ela resolve-se. A crise não existe. A comunicação social deturpa a palavra crise de uma forma que faz com que as pessoas andem assustadas e fez com que os portugueses perdessem os valores de há três anos a esta parte. Perderam-se valores como a educação, deixaram de olhar para o próximo e começaram a olhar mais para dentro. Antigamente, ajudavam-se mais uns aos outros. Falta-lhes o espírito de entre-ajuda. Perdeu-se o lema dos mosqueteiros de “um por todos e todos por um”. Hoje é cada um por si

 

 

Deus criou o Homem, ou foi o Homem que criou Deus?

Esta questão faz lembrar a típica questão de quem nasceu primeiro: o ovo ou a galinha. Mas penso que foi Deus que criou o Homem, embora não seja crente em Deus. Acredito que houve uma força superior, e que existiu uma pessoa que fez com que todas as histórias fossem possíveis e fosse escrito um livro chamado Bíblia.  Deus criou o Homem mas o Homem já tentou transformar esse ser Superior. Como dizem os ditados antigos, “Jesus da Nazaré disse que o Homem tentou virar os tempos, mas Eu com o tempo virarei a vontade contra os Homens”. Tudo isto faz-me confusão. Acredito mais na Nossa Senhora de Fátima, porque há testemunhas que a Senhora apareceu. Se Deus na realidade existisse não havia tanta desgraça por esse mundo fora. Não havia tanta morte, tanta fome, tanta tragédia, não explodiam aviões nas torres

 

Se pudesse voltar atrás o que mudaria na sua vida?

Não me arrependo nada do que fiz até hoje, com excepção de ter enganado a minha atual mulher durante algum tempo. Se pudesse voltava atrás, passava uma “borracha” gigante e apagava aquele tempo em que as hormonas falaram mais alto. Apagava esse momento da minha vida e o tempo que estive separado dela até nos reunirmos para realizarmos a nossa vida que já dura há dezoito anos. Quanto ao resto não mudava nem uma vírgula

 

Que faz no presente e que projetos para o futuro?

Estive ligado à SetúbalTV, durante dois anos, de onde trouxe uma “bagagem” enorme para os próximos tempos. Comemoro nos próximos meses, e até setembro do próximo ano, os meus vinte anos como discjokey. Em Setúbal, não é qualquer discjokey que consegue chegar a esta marca com a visibilidade que eu tenho. Vinte é um número gordo e merece ser comemorado de maneira diferente. Pensei em por em prática os conhecimentos que adquiri na SetúbalTV, os quais devo ao Luís Mestre, director do canal web. Resolvi fazer um documentário sobre a minha carreira. Começa precisamente em 1994, em Tróia, e que vai ser apresentado ao público em Setembro de 2014. Vamos passar em revista os vinte momentos mais altos da minha carreira, sem esquecer o nascimento do meu filho. Mas o cansaço da noite, a barba branca e os cabelos brancos não me vão permitir fazer mais vinte anos como discjokey, mas não garanto que não faça dezanove

 

 

CAIXA DE PALAVRAS

 

Um destino

Londres

 

 

Um livro

Anjos e Demónios

 

Uma Música

End Game (Megadeth)

 

Um ídolo

O meu avô paterno

 

Um prato

Caldeirada de choco

 

Um Conceito

Vive e deixa morrer

 

 

 

publicado por Joaquim Gouveia às 05:26

15
Nov 13

 

“NÃO HÁ OUTRO RIO AZUL IGUAL AO MEU”

 

Carminda Ferreira é uma mulher esclarecida e determinada. Sabe o que quer. O que pensa do mundo e por onde vai. Em pequena ouvia a Rádio Argel, com um copo de água sobre a telefonia para a PIDE, não identificar as ondas hertzianas. Tem uma casa e uma família recheada de afetos e não compreende porque os nossos governantes não aproveitam as potencialidades do país para sair da crise. É católica, crente e tem do Homem a visão material mas, também, a espiritual. Se voltasse atrás não mudava nada na sua vida. É regionalista, adora a serra da Arrábida e a caldeirada à setubalense

 

Como foi a sua infância?

Tranquila. Podia brincar livremente na rua. À noite, o meu pai lia-nos histórias, o jornal, romances, fazíamos versos, palavras cruzadas, escutávamos a Rádio Argel (com um copo de água em cima da telefonia, porque se acreditava, na altura, que desta forma a PIDE não conseguia identificar as ondas de rádio). Lembro-me das conversas sobre política, lá em casa, desde que me entendo. A 4ª classe foi feita na escola do Bairro da Conceição. Mantenho amizades de infância e do tempo de escola. Em alguns casos, os nossos filhos são igualmente amigos.

 

O primeiro amor…

Um colega de escola, por volta dos doze, treze anos. Durou dias. Depois foi o meu marido, que comecei a namorar aos 14 anos… até hoje.

 

E o primeiro emprego…

Comecei a trabalhar aos dezoito anos, no Serviço Social do Hospital de Setúbal. O ordenado não chegava a dois mil escudos, em moeda "portuguesa".

 

Como é a sua casa? Como a define?

É o lugar da família. Foi sendo preenchida em função de afectos. Nesse sentido, conta histórias: "Aquela cadeira", "aquele quadro" oferecido por um amigo de muitos anos, etc. É uma casa normal, sem luxo mas confortável.

 

O que pensa do mundo?

Ouço frequentemente dizer que o mundo está em transição, em busca de novos valores. Não sei se será. Apercebo-me da mesma barbárie milenar, só que em versão sofisticada. Promove-se a guerra em terra alheia, com fins económicos. Continuamos a assistir à exploração do homem, à escravização, a êxodos para fugir à fome. Vivemos uma era de primado do capitalismo desenfreado. É um mundo hedonista, onde os valores se relativizaram e nalguns casos se perderam. Parece que nada aprendemos com a História

 

Sente-se realizada humana e profissionalmente?

Do ponto de vista humano, ao olharmos à nossa volta, penso que dificilmente alguém poderá sentir-se realizado. Há muito por fazer, principalmente na área social. A responsabilidade social diz também respeito a cada um de nós. E deve começar com aqueles que nos estão mais próximos. Hoje em dia, ninguém tem tempo. Abandonam-se os familiares fragilizados pela idade e pela doença. Morre-se sozinho, com familiares em disputa pelos bens do moribundo. E não se pense que estas situações ocorrem apenas em certos estratos sociais ou que são pouco frequentes. Sei do que falo. Já dirigi uma IPSS. Que ninguém pense que já fez a sua obrigação. Do ponto de vista profissional não posso queixar-me. Passei pela Ministério da Saúde, pela Escola Superior de Educação, pelo IEFP, onde vivi uma experiencia extraordinariamente enriquecedora do ponto de vista profissional e humano. Tenho uma admiração extraordinária por quem ali trabalha, porque se confronta diariamente com o drama do nosso tempo: o desemprego, a insegurança, a incerteza. Ali, é-se um pouco de tudo: profissional, conselheiro, psicólogo, enfim. Não é um trabalho, é uma missão. De resto, trabalho e vivo na cidade onde nasci, onde nasceram os meus avós, os meus pais e os meus filhos. Não a troco por nenhuma outra, porque nenhuma outra tem uma Serra da Arrábida, nem um rio azul igual ao meu.

 

Como se resolve a crise?

Não existe nada de novo debaixo do sol. Basta olharmos para países que saíram completamente arrasados da Segunda Guerra Mundial, como é o caso da Alemanha, que em poucas décadas renasceu das cinzas. Ora: os portugueses são bons trabalhadores em qualquer parte do mundo; A nossa mão de obra é qualificada e barata. Temos recursos naturais: terra, mar, sol. O que é que nos falta, que não nos vemos livres da nossa ancestral incapacidade governativa? Falta-nos maior envolvimento social no exercício da cidadania. E solidariedade. Temos de ser nós a exigir contas a quem nos governa. Não podemos continuar de cabeça baixa, a achar que enquanto for só o meu vizinho a suportar a crise, eu estou a salvo e nada tenho com isso. Não é a abstenção que resolve o problema político, antes pelo contrário. Esta abstenção coloca em risco a democracia. A História diz-nos que é nas alturas vulneráveis que surgem as ditaduras. É preciso cuidado.

 

Deus criou o Homem, ou foi o Homem quem criou Deus?

Cito "Creio em Deus Pai todo-poderoso, criador do céu e da terra. De todas as coisas visíveis e invisíveis. Por Ele, todas as coisas foram feitas…" Sou crente, naturalmente.

Se foi o Homem quem criou Deus, quem foi então que criou o conceito de Deus? O Homem não é apenas um corpo físico. É também espírito. E esse espírito tem um criador. O mesmo que criou todas as coisas visíveis e invisíveis…

 

 

Se pudesse voltar atrás o que mudaria na sua vida?

Creio que as decisões que tomamos na vida são sempre as melhores. Pelo menos são as que nos pareceram as melhores na altura. As possíveis. Também nada nos garante que se tivéssemos tomado outras opções, que estas resultariam melhor ou nos tornariam mais felizes, ou mais felizes os que nos cercam. Acho que não mudava nada. Apenas teria dito mais vezes o quanto amava os meus familiares e amigos que já partiram. E não foram poucos. É importante verbalizarmos também os nossos afetos.

 

Que faz no presente e que projectos para o futuro?

Trabalho no Núcleo de Planeamento do CDSS. Estou na Assembleia Municipal, no segundo mandato. Talvez continuar a intervenção na área social, e publicar um trabalho de investigação em História, que se encontra a praticamente concluído há anos.

 

CAIXA DAS PALAVRAS

 

Um destino

Paris

 

Um livro

Cem anos de solidão (Gabriel G. Marques)

 

Uma música

Avé Maria (Bach)

 

Um ídolo

O meu pai

 

Um prato

Caldeirada à setubalense

 

Um conceito

Integridade

publicado por Joaquim Gouveia às 09:38

14
Nov 13

“O MUNDO É AQUILO QUE O HOMEM QUER”

 

José Raposo é um farmacêutico reformado que ao longo de 48 anos de atividade granjeou amizades e simpatias na cidade. A par disso sempre foi poeta, daqueles capazes de reinventar o amor. Nasceu em Santiago do Cacém e o Alentejo, continua a ser o seu destino preferido. Pensa que o mundo não é melhor porque o Homem não quer e enquanto for o Homem a decidir este será sempre o mundo que teremos. Foi Boletineiro nos correios e casou com a mulher da sua vida, o seu primeiro e único amor

 

 

Como foi a sua infância?

Nasci em Santiago do Cacém. Sou filho de pessoas simples e pobres e tenho duas irmãs mais novas. O meu pai era servente de pedreiro no inverno e caiador no verão. Os meus pais eram analfabetos mas criaram-nos muito bem. Apesar das dificuldades tive uma infância feliz. Sempre me adaptei ás circunstâncias. Brinquei muito e fui um aluno dentro do razoável

 

O primeiro amor…

Não tenho grande memória mas penso daquilo que me lembro que terá sido a minha mulher. Eu tinha 17 anos. Ela despertou-me interesse quase à primeira vista. É o meu amor de toda a vida

 

E o primeiro emprego…

Boletineiro. Entregava telegramas nos correios. Ganhava 6 tostões por telegrama

Como é a sua casa? Como a define?

Tenho a casa que posso ter. Estou feliz com a minha casa. É acolhedora num bairro bom da cidade que é o Montalvão. É onde gosto de estar

 

O que pensa do mundo?

O mundo é aquilo que o Homem quer mas o Homem não quer que um mundo feliz. E enquanto for o Homem a mandar é o mundo que temos. O culpado de tudo o que se passa no mundo afinal é o Homem

 

Sente-se realizado humana e profissionalmente?

Tenho uma família e afins que me permite sentir realizado humanamente. Profissionalmente fiz durante 48 anos o que sempre gostei de fazer. Sempre fui dedicado à minha profissão de farmacêutico, a tal ponto que considerava a farmácia onde trabalhava como se fosse minha.

 

Como se resolve a crise?

Acho que se os nossos políticos olhassem para as gerações mais antigas, analfabetos e sem recursos, criavam filhos, trabalhavam e pagavam as contas, percebiam como se resolvia a crise: não gastar mais do que se ganha e respeitar as regras do bom senso

 

Deus criou o Homem, ou foi o Homem quem criou Deus?

Sou católico. Acredito que existe algo a quem nós chamamos Deus, algo superior a nós. Deus deu-nos o livre arbítrio. Cada um terá de saber gerir a vida à sua maneira

 

Se pudesse voltar atrás o que mudaria na sua vida?

Tudo o que pretendi para a minha vida alcancei com maior ou menor dificuldade. Nunca tive horizontes muito largos. As coisas na minha vida foram acontecendo naturalmente, por isso acho que não mudaria nada

 

Que faz no presente e que projectos para o futuro?

Estou reformado. De momento a minha principal atividade é cuidar dos meus 3 netos com a minha mulher. Depois faço poesia, cantigas, marchas e outras. Não devemos fazer muitos projetos para a vida porque acabamos por esquecer os projetos que a vida tem para nós

 

 

CAIXA DAS PALAVRAS

 

Um destino

Alentejo

 

Um livro

Afectos e cumplicidades (José Raposo)

 

Uma música

Love me tender (Elvis Presley)

 

Um ídolo

O meu pai

 

Um prato

Cozido à portuguesa

 

Um conceito

Se vires um cágado em cima de uma árvore

não penses que foi ele que subiu. Alguém lá o pôs

 

publicado por Joaquim Gouveia às 05:07

13
Nov 13

 

O Futuro preocupa-me e muito!

 

Tem sessenta e cinco anos, nasceu em Setúbal, no bairro de Troino. Aos treze anos abraçou o escutismo católico onde diz ter aprendido os fundamentos da democracia. Esteve muitos anos ligado ao imobiliário e à construção civil, tendo participado na reconstrução de Tróia. Gosta de escrever e a serra da Arrábida fascina-o pelos seus mistérios, tendo já dedicado alguns livros a esta musa. Às vésperas de lançar o seu oitavo livro sobre a missão dos mórmons em Portugal, Rui Canas Gaspar confessa-se preocupado com o futuro do mundo

 

Entrevista de Helena galvão

 

Como foi a sua infância?

Tive uma infância normal, brinquei nas ruas do bairro de Troino, recordo as brincadeiras com os buracos e a água da chuva que servia para flutuar barquinhos, e diverti-me imenso enquanto menino. Aos treze anos ingressei nos escuteiros e senti a vida ficar mais séria, mas fui muito feliz. Fui um dos dirigentes mais novos do Corpo Nacional de Escutas, e aprendi no escutismo os fundamentos da democracia.

 

O primeiro Amor…

Não me lembro muito bem da “mocinha”, mas deveria ter uns treze anos e recordo-a com um perfume muito agressivo. Já adulto, e já casado, ela dirigiu-me a palavra numa loja na baixa de Setúbal e questionou-me se me lembrava dela (risos)

 

E o primeiro emprego…

Foi na sapataria 53 na baixa de Setúbal. Arrumava as caixas de sapatos e levava-os à “amostra”. Um serviço personalizado em casa dos clientes, para que pudessem experimentar. Ao fim de algum tempo, passei a atender na loja, na altura em que surgiram as primeiras sabrinas

 

Como define a sua casa?

A minha casa é o meu cantinho do céu aqui na terra. É o sítio onde eu me sinto bem, é o local onde eu tenho um sofá para me sentar, uma cadeira e uma secretária e um computador para trabalhar. Onde está a minha esposa, o meu neto e com ele faço “batalhas aéreas” com aviões de papel. É o meu cantinho do céu porque até eu casar nunca tive um sofá. Tinha uma cadeira numa casa pequenina em Troino, onde nem sequer havia espaço para o sofá. Dou muito valor ao sofá, não interessando que ele seja de pele, seja do que for, é o meu conforto e bem-estar

 

O que pensa do mundo?

Vejo o mundo de duas formas. Nunca a tecnologia avançou tanto, nunca tivemos bens materiais e conforto. A evolução do mundo é uma coisa espectacular. Por outro lado, nestes últimos anos temos vindo a assistir a um aumento do egoísmo, do materialismo, do “eu” em detrimento do colectivo. Sou um homem que preza muito a solidariedade, a fraternidade, o bem-estar de todos, aquilo que eu quero para mim é aquilo que eu quero para os outros. Nos anos sessenta, por exemplo, havia alguma utopia, mas os jovens faziam algo pelos outros. Hoje as pessoas fazem desde que lhes paguem. O voluntarismo é muito raro. As próprias famílias ressentem-se, não têm filhos porque é uma prisão, as pessoas não fazem nada se não receberem algo em troca. O que vai ser o nosso mundo dentro de meia dúzia de anos? O futuro preocupa-me. Aqueles que hoje estão cheios de “sangue na guelra” dentro de uma dúzia de anos estarão velhos e nem sequer têm filhos a quem recorrer porque foram egoístas

 

Sente-se realizado humana e profissionalmente?

Sou um homem de sorte, feliz, porque brinquei como criança sem dinheiro, porque não havia dinheiro para brinquedos. Como jovem e adulto realizei-me. Profissionalmente, fiz aquilo que sempre gostei de construir. Comecei pelo tal paquete modesto que levava as caixas de sapatos à “amostra” e quando deixei de trabalhar por conta de outrém era director da minha empresa. Ainda continuo a trabalhar na gestão do meu património familiar a par da escrita dos meus livros e liderança do programa de voluntariado mórmon “Irmãos” que ajudam na zona de Setúbal

 

Como se resolve a crise?

A crise resolve-se com o trabalho de todos. E resolver-se-á quando tivermos um governo com pessoas credíveis que façam a gestão do país como se estivessem a gerir a sua própria casa. Que dêem provas de seriedade e que sejam exemplo, pelo exemplo.

Gosto muito da frase “A palavra convence, mas o exemplo arrasta”. Não consigo conceber que um ministro tenha vinte ou trinta carros à disposição e peça aos outros para poupar no combustível. A crise resolve-se quando tivermos pessoas competentes do ponto de vista técnico, mas sobretudo com pessoas humanas que ponham o bem- estar comum à frente do bem-estar individual. Discordo da política do “garrote”, do poupar, poupar. Quando a construção civil avança, também avança a economia

 

Deus criou o Homem, ou foi o Homem quem criou Deus?

Deus criou o homem e a própria ciência mostra-nos a evidência desse facto. Alguns telescópios descobriram planetas onde é suposto haver vida. Para mim Deus criou o Homem, e ponto final

 

Se pudesse voltar atrás o que mudaria na sua vida?

Não mudaria rigorosamente nada. A vida é feita de altos e baixos, de coisas boas e más. As rosas são flores muito bonitas mas se nos descuidarmos ficamos com a mão picada. Num dos meus empregos cheguei a ter um ano de ordenados em atraso. Estou a passar pela crise tal como todos os portugueses. Vivi coisas boas, conheci a paz, defendi-a. Estive na Guiné e livrei-me da malária. Passei por tudo isto mas consegui ultrapassar tudo

 

 

Que faz no presente e que projetos para o futuro?

Tenho como prioridade apoiar os meus filhos, através dos netos. Já estou reformado no papel mas na prática continuo a fazer a gestão do meu património familiar. Enquanto estive no activo, profissionalmente, procurei seguir uma máxima que aprendi nos escuteiros: “Trabalhar, poupar, investir e gastar. Estou também a escrever o oitavo livro, este sobre a história da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, em Portugal. Conta a história de milhares de pessoas que têm desenvolvido a sua fé e têm dado muito de si. É uma homenagem aos missionários mórmons, rapazes e moças que deixam a sua terra, a sua família e as suas namoradas, pagando do seu bolso a sua missão num país estrangeiro. Intitula-se “Movidos pela Fé” e será apresentado ainda antes do Natal.

Enquanto escuteiro católico tinha uma fé infantil, nesta Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias adquiri uma fé adulta, mais vivenciada e identifica-se mais com a minha maneira de ser e de estar.

 

 

CAIXA DE PALAVRAS

 

Um destino

Amazónia

 

Um livro

A Bíblia

 

Uma Música

Mais perto quero estar (Sarah Flower Adams e

João Gomes Da Rocha)

 

Um ídolo

O meu pai

 

Um prato

Carapaus grelhados na brasa

 

Um Conceito

Solidariedade

 

 

publicado por Joaquim Gouveia às 09:39

12
Nov 13

 

“VEJO QUE O MUNDO VAI CAIR”

 

Luis Rosa é músico e cantor e já pisou centenas de palcos animando bailaricos e outras festas. O seu primeiro emprego foi como carpinteiro-marceneiro, profissão que abraçou ao longo de 18 anos. O seu primeiro amor começou bem e acabou mal. A sua casa é agradável e sem luxos, onde recebe familiares e amigos. Acha que o Governo, não permite resolver a crise criando travões, impostos e leis. No futuro quer formar uma banda, largar o teclado e tornar-se apenas cantor. Acredita em Deus, mas acha que foi o Homem quem o criou. Aprecia a palavra “humildade”

 

 

Como foi a sua infância?

Nasci em Setúbal, mas vivi até aos 2 anos de idade na Volta da Pedra. Entretanto os meus pais separaram-se e eu regressei à cidade, para a quinta Alves da Silva. Fiz alguns amigos. Andei na escola primária nº4 do Viso. Brincava-se com segurança e com respeito pela vizinhança

 

O primeiro amor…

Foi bonito no inicio e péssimo no fim. Eu tinha 15 anos e apaixonei-me por uma vizinha, porta com porta, nas Manteigadas. Foram quatro anos e meio de namoro que os pais dela decidiram acabar. Foi muito triste

 

E o primeiro emprego…

Com 13 anos como carpinteiro/marceneiro. Ganhava 3 contos e 500 por mês

Como é a sua casa? Como a define?

É uma moradia ligeira, simples e confortável. Não tenho luxos. É uma casa agradável onde recebo familiares e amigos

 

O que pensa do mundo?

Vejo que o mundo vai cair. O mundo económico e social está cada vez mais complicado porque as pessoas não se querem entender. Tudo isto tem a ver com o egoísmo e a vaidade

 

Sente-se realizado humana e profissionalmente?

Sempre fiz o que gostei desde a minha primeira profissão. Hoje sou músico e cantor profissional. A música está comigo desde os meus 8 anos

 

Como se resolve a crise?

Não somos nós que temos de resolver mas sim o Estado. Penso que existem soluções, mas o nosso Governo, não nos permite avançar para elas. Há sempre um travão, um imposto, uma lei

 

Deus criou o Homem, ou foi o Homem quem criou Deus?

Sou católico. Acredito em Deus, mas no entando penso que terá sido o Homem a criar o seu próprio Deus. Acho que antes de existir Deus já existia a raça humana e animal

 

Se pudesse voltar atrás o que mudaria na sua vida?

Mudaria alguns erros de vida que cometi e que hoje reconheço que poderia ter feito de outra forma

 

Que faz no presente e que projectos para o futuro?

Sou músico e no futuro gostava de formar uma banda e deixar o teclado para ser apenas cantor

 

CAIXA DAS PALAVRAS

 

Um destino

Cuba

 

Um livro

Não tenho

 

Uma música

Qualquer uma dos Bon Jovi

 

Um ídolo

Zezé di Camargo e Luciano

 

Um prato

Peixe assado

 

Um conceito

Humildade

 

publicado por Joaquim Gouveia às 07:56

11
Nov 13

 

“NÃO TENHO IDEIAS DE IR À LUA”

 

Fernando Neves é um empresário da medição imobiliária setubalense. É figura bem conhecida, popular e afável no trato. O seu primeiro amor só aconteceu aos 26 anos, com a mulher com quem casou e lhe deu os filhos. A crise resolve-se com atitude mostrando aos líderes a vontade dos povos. Pensa que o mundo tecnológico evoluiu em contraponto com o social que mantém a mesma dimensão. Adora as lulas recheadas feitas pela sua mãe e não dispensa uma boa partida de golfe

 

Como foi a sua infância?

Foi feliz, passada em grande parte na rua com muita brincadeira. Não havia computadores e a televisão era a preto e branco. Nasci em Setúbal e morei na Palhavã e no Bairro Salgado. Andei no externato Diocesano e depois na primária do Bairro Salgado

 

O primeiro amor…

Foi com a minha mulher, tinha 26 anos. De resto nenhuma das aventuras amorosas foram o primeiro amor

 

E o primeiro emprego…

Na Banca, era assessor do vice-presidente do BNC. Na altura a Banca já pagava bem

Como é a sua casa? Como a define?

É um espaço de descanso e lazer. Tenho um quarto para os meus filhos jogarem à bola onde só existem 2 balizas. É uma casa muito central que dá para ir à praça aos domingos comprar um peixinho

 

O que pensa do mundo?

Já vi melhores dias. Contudo acho que as coisas evoluem para uma sociedade mais avançada. Nota-se um avanço tecnológico, mas o plano social não tem a mesma dimensão

 

Sente-se realizado humana e profissionalmente?

Sim, completamente. Tenho menos sonhos e ilusões do que anteriormente pela realização que já atingi na vida. Hoje ensino aos meus filhos que os sonhos deles devem passar pela sua própria felicidade

 

Como se resolve a crise?

Com atitude. Temos que nos unir em torno de objetivos e trabalhar de forma a que os nossos líderes entendam que é esse o caminho e a vontade dos povos. A população tem dado sinais de maior maturidade sobre a crise, ao contrário das cúpulas que ainda não se entenderam

 

Deus criou o Homem, ou foi o Homem quem criou Deus?

O Homem criou Deus à imagem daquilo que gostava de ser. Gosto da expressão “Cada um sabe de si e Deus sabe de todos”, e isto quer dizer que cada um tem de fazer o seu caminho

 

 

Se pudesse voltar atrás o que mudaria na sua vida?

Acho que sim. Tentaria ser mais humano em torno de equipas maiores e mais unidas

 

Que faz no presente e que projectos para o futuro?

Sou proprietário de uma empresa do ramo de mediação imobiliária “Casa-Caso”, entre Setúbal e Tróia. Faço parte dos orgãos da APEMIP (Associação das Empresas Imobiliárias). Gostaria de ter ajudado mais o Vitória de Setúbal com um papel mais ativo enquanto associado. No futuro pretendo jogar golfe e brincar com os meus filhos. Não tenho ideias de ir à lua...

 

CAIXA DAS PALAVRAS

 

Um destino

Tróia

 

Um livro

O perfume (Patrick Süskind)

 

Uma música

True (Spandau Ballet)

 

Um ídolo

O meu pai

 

Um prato

Lulas recheadas feitas pela minha mãe

 

Um conceito

Quem boa cama fizer nela se deitará

publicado por Joaquim Gouveia às 08:04

09
Nov 13

 

“Gostava de ser Santo”


Entrevista de Helena Galvão

 

Nasceu em Almada, em Agosto de 1974 e é o mais novo de quatro irmãos. Entra para o Seminário aos dezoito anos e está há oito na paróquia de Nossa Senhora da Anunciada, em Setúbal. Considera o mundo uma maravilha incompleta que só Jesus consegue preencher. Desde menino que ambiciona ser santo, dependendo disso a sua realização humana. Recorda com muito carinho a professora da primária

 

Como foi a sua infância?

Recordo a minha infância com um sorriso como se fosse algo muito bom, tenho muito boas recordações de andar a “galdeirar”. A minha mãe era cabeleireira em casa, e fazia os trabalhos de casa a correr para ir brincar para a rua. Tenho muito boas recordações da minha professora primária, que se chamava Angélica. Foi uma infância feliz, e por ser o mais novo de quatro irmãos era o mais mimado, e senti que os meus três irmãos me abriram o caminho para saídas e viagens

 

O primeiro Amor…

Tive várias paixões de adolescência e juventude mas aos dezasseis anos ao perceber o amor de Deus por mim, descobri o amor. Depois aos dezoito anos entrei para o seminário. O meu grande amor é a Igreja

 

E o primeiro emprego…

Começei a trabalhar com treze anos, no verão em que fiz quatorze, num café em Corroios. Tirava bicas e imperiais, servia às mesas e ao balcão. Depois trabalhei numa loja de colchões ortopédicos. Vendia colchões, almofadas e poltronas

 

 

Como define a sua casa?

Gosto da minha casa, é suficiente para mim e para a minha irmã e quando lá vai alguém para ficar connosco, há sempre lugar para mais um, nem que seja para acampar, na sala ou no quarto de algum de nós. Mas o facto do quarto estar voltado a norte faz com que seja gelado. Sinto falta de ver o mar. Os meus pais tinham uma casa entre a Trafaria e a Costa de Caparica, com um horizonte fabuloso. O mar ajuda-me a descansar e a serenar.

 

 

O que pensa do mundo?

O mundo é uma maravilha, seja mundo planeta terra/universo, seja mundo comunidade humana. No entanto, é uma maravilha que está incompleta, tem um buraco que só é preenchido por Jesus. Na prespectiva de comunidade humana, o ser humano é a imagem e semelhança de Deus, somos fabulosos e temos coisas fantásticas. E enquanto continuarmos teimosos, casmurros a voltar as costas a Deus continuaremos “à pancada uns com os outros”.

O ser humano corre o risco de entrar na casmurrice e na teimosia de obstinadamente continuar a querer voltar as costas a Jesus e não é de admirar que a gente se mate, se falcatrue, se vigarize e fale mal uns dos outros.

O mundo já é bom mas tornar-se-ia ainda melhor se abrissemos o coração a Jesus

 

 

Sente-se realizado humana e profissionalmente?

Poderei sentir-me realizado quando for santo. É uma ambição que tenho desde pequeno. Quando eu percebo que as pessoas se aproximam de mim e encontram Jesus, sinto-me realizado. Quando as pessoas se aproximam de mim e encontram simplesmente o presidente do Centro Paroquial para tentar encontrar um trabalho para alguém e colocar o pai no lar ou o filho no infantário, não me sinto realizado.  Se se aproximam de mim e descobrem em mim Jesus, sinto-me realizado. Profissionalmente, é mais uma vocação, é a minha vida. A minha realização profissional e humana no meu caso coincide.

 

Como se resolve a crise?

Já o Papa Bento XI, dizia que a crise é uma crise moral, uma crise de valores porque deixámo-nos de respeitar uns aos outros. Quando esta crise for ultrapassada, a crise económica deixa de existir. Quando nos olharmos  como seres humanos e irmãos a crise começa-se a resolver. Enquanto os paises mais ricos e mais industrializados continuarem a olhar para os paises mais pobres com a atitude de tentar sacar seja madeira, seja diamantes, seja texteis a baixo custo, e como uma oportunidade para explorar, continuará a haver terrorismo. Se os paises mais desenvolvidos pensassem “ vou-te ajudar a crescer e a arrebitar” seriam dois paises a enriquecer. A nível particular passa-se o mesmo

 

 

Deus criou o Homem, ou foi o Homem que criou Deus?

Foi Deus que criou o Homem, sem dúvida. Quando olhamos para a Sagrada Escritura fica claro que o Homem não conseguiria criar Deus, inventar Deus. O judeísmo e as várias igrejas cristãs reconhecem que Deus, nunca poderia ter sido criado pelo Homem. Um Deus que se preocupa, um Deus atencioso, um Deus que escuta, que ama e perdoa não é de todo criado pelo Homem. Nós criaríamos deuses à nossa imagem e semelhança, como os deuses dos gregos, dos romanos. Há muitas religiões que inventam divindades à nossa imagem e que nós percebemos nelas traços humanos. No Deus que se revela ao povo de Israel, e depois plenamente em Jesus Cristo, percebemos a questão ao contrário. Nós é que deveríamos ter em nós traços de Deus e essa é que é a parte difícil. Amar, perdoar, ser misericordioso, ser alegre, pacífico são traços de Deus e não dos homens

 

Se pudesse voltar atrás o que mudaria na sua vida?

Eu mudaria todas as faltas de paciência, os palavrões e todas as vezes em que eu dei motivo às pessoas para se chatearem comigo. E desde miúdo pequeno que dei motivos aos meus pais, aos meus irmãos e aos meus colegas. Não ganhamos nada com isso. Tenho recordações em que ajudei a chatear alguém. Provoquei mágoas nos outros, chamo a isso pecado

 

Que faz no presente e que projetos para o futuro?

Aqui na paróquia gostava de ter mais casais e que não se divorciassem. O divórcio é um cancro terrível. E gostava que os casais tivessem mais filhos. É bom sinal. Vejo que quantos mais filhos o casal tiver, as crianças e os casais são mais felizes. A família está pelas ruas da amargura. Falta perdão. As pessoas têm que se habituar a perdoar e a não se vingar. Perdoar o marido, perdoar a mulher, a sogra, a cunhada. As pessoas não estão habituadas a perdoar, não foram educadas e treinadas para perdoar. Todos nós nos ofendemos mutuamente, diáriamente, e enquanto as pessoas não se habituarem a perdoar isto vai de mal a pior

 

 

CAIXA DAS PALAVRAS

 

Um destino

Terra Santa

 

Um livro

Jesus e o teu corpo

 

Uma Música

Qualquer música dos U2

 

Um ídolo

Santo António de Lisboa

 

Um prato

Qualquer coisa com natas

 

Um Conceito

A Alegria

 

 

publicado por Joaquim Gouveia às 05:36

08
Nov 13

 

“VIVEMOS NUM MUNDO DESIGUAL POR CULPA DOS MAIS RICOS”

 

O Dr. Leonídio Fuzeta é um conceituado farmacêutico, antigo professor de matemática e ciências. Nasceu em Setúbal e cresceu e brincou nas ruas do bairro Salgado. Foi apontador numa empresa de construção civil, aos 17 anos, nas férias escolares. Pensa que o mundo é muito desigual por culpa dos mais ricos e a tragédia de Lampedusa é cena horrível que deve merecer maior atenção. Para si a crise resolve-se renegociando a dívida mas nunca a 3 ou 4 anos. Não esquece o memorável J.J. e as suas fintas e adora coelho à caçador

 

 

Como foi a sua infância?

Foi passada no Bairro Salgado e muito na rua, com muita brincadeira e muitos amigos. Foi uma infância muito feliz. Tenho um irmão mais velho

 

O primeiro amor…

Tinha 18 anos e durou 3 anos. Era uma miúda muito bonita que conheci no antigo Café Central

 

E o primeiro emprego…

Apontador numa empresa de construção cívil, aos 17 anos, nas férias de Verão. Devia  ganhar à volta de 3 contos por mês (15 euros)

Como é a sua casa? Como a define?

É uma casa muito grande na estrada da Baixa de Palmela. É confortável, agradável, tranquila e com uma vista previlegiada para a serra e para os dois castelos. Adoro estar na minha casa

 

O que pensa do mundo?

No mundo atual há uma diferença cada vez maior entre os muitos ricos e os muitos pobres. É um mundo desigual. E isto será sempre por culpa dos mais ricos. Assistimos a cenas terríveis como as de Lampedusa

 

Sente-se realizado humana e profissionalmente?

Sim. Extremamente satisfeito com a vida, que me deu muito mais que aquilo que pensava que viria a ter. Isso deve-se à minha profissão, à sorte e à minha mulher e aos meus filhos

 

Como se resolve a crise?

É a primeira vez que vejo uma geração a viver pior que a anterior e se não se tomarem medidas isto irá ser ainda pior. Ou não pagamos, ou renegociamos a dívida que me parece ser o mais acertado. Mas nunca em 3 ou 4 anos

 

Deus criou o Homem, ou foi o Homem quem criou Deus?

Não sei se existe Deus. Não vejo o Deus na terra nem em lado nenhum

 

Se pudesse voltar atrás o que mudaria na sua vida?

Gosto muito de estar vivo, mas se não tivesse a farmácia que me deu tudo o que tenho gostava de experimentar outro modo de vida. Gostei muito de ter sido professor de matemática e ciências

 

Que faz no presente e que projectos para o futuro?

Sou farmacêutico e proprietário de duas farmácias “Fuzeta” e “Sado”. No futuro tenho que me empenhar mais na gestão e marketing

 

CAIXA DAS PALAVRAS

 

Um destino

Praga

 

Um livro

O padrinho (Mario Puzo)

 

Uma música

Menina das sete saias (Trovante)

 

Um ídolo

J.J. (Jacinto João)

 

Um prato

Coelho à caçador

 

Um conceito

Ética

publicado por Joaquim Gouveia às 00:01

Novembro 2013
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2

3
4
5
6
7
8
9

10

17

24


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

subscrever feeds
arquivos
mais sobre mim
pesquisar
 
blogs SAPO