“APAIXONEI-ME POR ESTA CIDADE”
Albérico Afonso é professor do ensino superior e investigador da história contemporânea de Setúbal. Oriundo de terras alentejanas apaixonou-se por uma setubalense e depois pela cidade onde tem a sua vida o que lhe confere um estado de realização quase plena. Na infância não passou dificuldades mas viu muitos colegas seus irem descalços para a escola, fato que o marcou. Tem do mundo um pensamento complexo mas admite que é profundamente desigual. Para si o Homem criou todos os deuses que se conhecem. Não tem receita para a crise mas pensa que ingredientes como a solidariedade, a liberdade e o respeito são essenciais. É ainda deputado muncipal pelo Bloco de Esquerda e espera cumprir o seu mandato até ao fim
Como foi a sua infância?
Sou de Vera Cruz, Alentejo, concelho de Portel. Dividi a minha infância entre essa aldeia e Lisboa, onde frequentei o Colégio Moderno. Foi uma infância normal numa aldeia num período complicado para Portugal com grande pobreza. Não passei dificuldades mas confrontava-me com quem as tinha. Muitos colegas meus iam descalços para a escola e isso marcou-me imenso. Fui sempre um bom aluno. As brincadeiras eram na rua que era o espaço de sociabilização.
O primeiro amor…
Estou mais preocupado com o último...
E o primeiro emprego…
Foi um emprego sazonal nas férias grandes a organizar uma biblioteca numa fábrica de mobiliário chamava FOK. Tinha 15 anos e não me lembro de quanto ganhava
Como é a sua casa? Como a define?
É o espaço para trabalhar, para passar grande parte do dia e da noite. Foi construído para que me sinta bem. Partilho com a família e com os meus amigos.
O que pensa do mundo?
É demasiado grande e complexo para caber num único pensamento. Se nos centrarmos nos problemas sociais e económicos vemos que estamos num mundo profundamente desigual. Basta pensarmos que as 80 pessoas mais ricas do mundo têm uma riqueza equivalente a 70% da riqueza mundial. Isto é desumano e injusto. Mas o mundo também é um local perigoso. O armamento bélico dava para destruir várias vezes o planeta. Mas também noutras dimensões o mundo é um espaço onde há muito para fruir com uma variedade de locais fantásticos.
Sente-se realizada humana e profissionalmente?
Considero-me e, também privilegiado porque tenho a sorte e prazer de ter no exercício da minha atividade profissional a docência e investigação ciêntifíca ligada à história. Apaixonei-me por uma setubalense, depois pela cidade e o fato de aqui ter a minha vida é um fator de enorme realização.
Como se resolve a crise?
Não tenho nenhuma receita. Estou convencido que há um conjunto de ingredientes indispensáveis para fazer o mundo melhor. Na minha prespetiva será solidariedade, liberdade e respeito pela dignidade humana. Se falamos da crise do nosso país dava jeito que este governo terminasse a sua estratégia de empobrecimento tão devastadora.
Deus criou o Homem, ou foi o Homem quem criou Deus?
O Homem tem sido muito competente em criar vários deuses. Não criou apenas um. Mas centenas e até milhares de deuses. Criou uns mais crueís, outros mais brandos e outros mais próximos da escala humana. Mas foram todos criação do Homem.
Se pudesse voltar atrás o que mudaria na sua vida?
Esse é um exercício um bocado inútil. O contrafatual não existe e por isso não faz muito sentido. No fundamental não faria grandes mudanças.
Que faz no presente e que projectos para o futuro?
Sou professor do ensino superior que é uma atividade que me dá muito prazer e que espero continuar por mais alguns anos e proseguir a investigação histórica mais centrada na história contemporânea de Setúbal. Sou deputado municipal eleito pelo Bloco de Esquerda e espero cumprir o meu mandato popular até ao fim.
CAIXA DAS PALAVRAS
Um destino
Florença
Um livro
A mãe (Máximo Gorki)
Uma música
Era um redondo vocábulo (José Afonso)
Um ídolo
Não consumo
Um prato
Açorda de Baldroegas
Um conceito
Solidariedade

